Acordei com um sonho em que não podia acordar.
Na primeira casa onde me lembro que vivi, estava a dormir numa cama que lá não existia e com a cabeça virada para o quarto onde vivi maior parte da minha vida. Estava a dormir mas a dormir como quem já tinha sido incomodado, a dormir e a ver as coisas que se passavam à minha volta. E passava-se muita coisa estranha à minha volta, sobretudo no meu quarto. Estava a fazer que dormia enquanto observava as pessoas no meu quarto, estava no sonho da mesma maneira que adormeci, com os braços em cima da cabeça a tapar a luz, mas a esgueirar-me por uma frestazinha com o maior interesse de sempre.
É então que acontece o pior, sou apanhado no meio do meu voyerismo. De repente apanhado pelos co.....! Não podia acordar, tinha que fazer que estava a dormir. Fiquei mesmo à rasquinha, como é que ia sair daquela? Já a sentir a roupa da cama enxovalhada da tensão dos músculos, as respirações controladas para ficar estático, acompanhadas ritmadamente por um espasmo na mão que segurava o telecomando.
Calma, eu conheço estes lençóis, no pânico já a deixar de sentir os joelhos tive dois rasgos de lucidez: eu tenho de acordar, nunca houve nenhuma cama onde pudessem ficar pessoas a dormir e a olhar para o meu quarto.
Abri um olho e poucas vezes, algumas, me alegrei tanto de ver S. Marcos como desta. Enganei-me bem desta vez.
É bom não ter que ter ideias para um post, mas não é assim tão bom partilhar os sonhos. Mas nunca é confortável partilhar nada. Olhando para o que escrevi parece ser difícil distinguir as ideias conscientes das inconscientes.
Escrevi porque é horrível aquela coisa de esquecer os sonhos. Não se esqueçam dos vossos sonhos. É só um sonho, e a vida continua. Por onde?
6.3.07
2.3.07
Início
Quando há pouco a dizer todos querem ouvir.
Para mim é bem pior do que ter muito a dizer e haver pouca gente para ouvir.
Mas esse problema já deve ser meu.
Para mim é bem pior do que ter muito a dizer e haver pouca gente para ouvir.
Mas esse problema já deve ser meu.
24.2.07
Incoerência
Diz quem sabe que a simetria é um dos principais critérios de beleza, que instintivamente avaliamos a beleza pela simetria das pessoas. É uma espécie de coerência no mundo físico, porque a coerência é sempre uma coisa bonita de admirar.
Podia arranjar umas quantas citações, mas vocês também já o disseram. Não sabem bem porquê mas ela/e consegue agradá-los de todas as formas. Essa é a coerência instintiva, a paixão. Costuma durar duas semanas no mundo dos vivos, há quem diga que pode durar uma vida, mas há custa de quê?
Pelo critério da simetria deixávamos de fora os narizes tortos, os sinais na bochecha e os penteados desacertados. Pior que isso, o risco ao meio do Paulo Bento seria o exemplo a seguir.
Óbviamente que há algo de errado nisto, como há algo de errado em nascermos a fazer tudo com uma mão. Estive a fazer limpezas furiosamente e parece que tenho um filho a nascer do lado direito, do lado esquerdo? Não diz muita coisa, está calminho com o coração a sair do ritmo de vez em quando.
Não é possível que as pessoas que fazem limpezas estejam pré-destinadas a olhar a beleza de longe.
Antes de terminar, de certeza que há gente que vai dizer: "Mas eu sei perfeitamente o que me agrada nos outros, sei muito bem o que procuro!" (porque há sempre gente que só sabe o que os outros não sabem), pois bem deixa-me adivinhar, procuras pessoas que dizem exactamente isso?
A única coisa que interessa aqui é como nos podemos apaixonar durante mais de duas semanas, e o que temos que fazer para que isso aconteça. Eu vou fazer push-ups para que o lado esquerdo fique mais equilibrado com o lado direito.
Quero ser coerente, pelo menos fisicamente.
Podia arranjar umas quantas citações, mas vocês também já o disseram. Não sabem bem porquê mas ela/e consegue agradá-los de todas as formas. Essa é a coerência instintiva, a paixão. Costuma durar duas semanas no mundo dos vivos, há quem diga que pode durar uma vida, mas há custa de quê?
Pelo critério da simetria deixávamos de fora os narizes tortos, os sinais na bochecha e os penteados desacertados. Pior que isso, o risco ao meio do Paulo Bento seria o exemplo a seguir.
Óbviamente que há algo de errado nisto, como há algo de errado em nascermos a fazer tudo com uma mão. Estive a fazer limpezas furiosamente e parece que tenho um filho a nascer do lado direito, do lado esquerdo? Não diz muita coisa, está calminho com o coração a sair do ritmo de vez em quando.
Não é possível que as pessoas que fazem limpezas estejam pré-destinadas a olhar a beleza de longe.
Antes de terminar, de certeza que há gente que vai dizer: "Mas eu sei perfeitamente o que me agrada nos outros, sei muito bem o que procuro!" (porque há sempre gente que só sabe o que os outros não sabem), pois bem deixa-me adivinhar, procuras pessoas que dizem exactamente isso?
A única coisa que interessa aqui é como nos podemos apaixonar durante mais de duas semanas, e o que temos que fazer para que isso aconteça. Eu vou fazer push-ups para que o lado esquerdo fique mais equilibrado com o lado direito.
Quero ser coerente, pelo menos fisicamente.
Se Não Perguntarmos ...
Sabemos que não vamos levar uma tampa daquela loira que está mesmo a jeito no meio da disco, porque ela tem namorado ...
Se Não Procurarmos ...
Nunca vamos descobrir que temos uma garrafa de vinho branco no frigorífico naquela noite prolongada de ressaca que dava mesmo jeito ir para a cama mais descansado.
24.1.07
Monte dos Torrejais
Acorda-se às 10 com o barulho da irritação com os cães e com os gatos a esgravatar nas portas e a bater nas janelas. O mau humor matinal fica logo no pontapé no gato que teima em dormir em cima da roupa que esqueci ao lado da cama. Quando é o gato que me acorda a dar cabeçadas na janela, aproveito para me rir da cara do Tobias, o cão, a implorar para abrir a porta antes que a sua bexiga expluda. Na casa de banho chamo o Jamiroquai, a Joss Stone, ou até a Pink em acústico com o pai, para me ajudar a não adormecer enquanto a água aquece.
Água fria nas mãos significa ficar paralisado até aos ombros, na cara serve para ficarmos a olhar para o espelho e pensarmos que somos mesmo giros. O duche é uma luta com as torneiras que não misturam como deviam, a água vem do furo que pelos vistos consegue descobrir quando estamos a tirar a fria, no momento em que pensas "agora está mesmo bom!" e pás! Pior que isso, não é uma queimadela nas peles finas da barriga, é que a torneira da água fria salta! Sim, salta e aponta mesmo para o dedo mindinho. Por esta altura só champô nos olhos, para me fazer voltar a entrar dentro da barriga da minha mãe, o conforto e o carinho na altura que mais precisamos.
Já chegado à cozinha relembro a fome com que me deitei no dia anterior, e venha daí o maior pequeno-almoço. Ouve-se um resmungo-murmuro, a minha irmã fala assim, "Não deixas dormir ninguém!", consigo olhar para ela durante dois segundos antes de voltar a tratar do pequeno almoço, ou seja, a fazer a dança do micro-ondas, a que faz os alimentos ficarem quentes duas, sim duas, vezes mais rápido. A minha irmã acende a televisão, depois dum zapping volta ao canal original, canal Andalucia. De manhã nem é assim tão interessante, mas os putos freaks que aparecem na TV espanhola, as repórteres que estripam os entrevistados e as espanholas a cantar e os espanhóis a bater palmas até ganham ao Goucha no fato da Picolé.
Chocapic daqueles novos, com brancos e pretos. Já me tinham recomendado, provo os brancos, não sabe nada bem. Derrete-se como se fosse manteiga, não tem nada a ver com os Galaks da minha infância, "Cláudia abre as mãos, não vou meter isto no meu leite!". E é então que se dá um momento de comunhão único.
A minha irmã abre as mãos, quando eu aproveito para lhe mandar a escáfia "Devias comer mais...", mal os Chocapics começam a deslizar pela caixa, o Tobias, mesmo que esteja no outro lado do monte, parte no desafio de tentar alcançar a sua parte. Atravessa a porta da cozinha na maior das urgências e senta-se ao meu lado com o ar vidrado de quem sabe que tem de fazer tudo para conseguir que lhe dê um chocapic. Para o Tobias, que também é o irmão mais novo, não há rebeldia que se sobreponha a conseguir a sua dose de chocolate, é uma espécie de transe sem a parte espectacular, em que fica estático, especado com os olhos abertos a focar aquilo que pode ser a concretização da sua vida.
A minha irmã recusa-se a ajudar a separar os Chocapics brancos dos pretos, eu insisto sem dizer nada, ela agarra num punhado de chocapics e come, dá-lhe o açucar suficiente para me ajudar. Os brancos são muito menos em proporção aos pretos. Deviam ser melhores? Separa-se o trigo do joio, ou o joio do trigo? Nunca me lembro. Não vamos por aí.
O Tobias dá duas ou três abébias enquanto os chocapics tilintam, há um outro que cai, mas ele não consegue deixar de olhar para o Jackpot. Tenta ladrar, mas lembra-se que não deve ser estúpido enquanto eu tiver com os Chocapics na mão. Acabamos de separar os Chocapics, a minha irmã concorda que os brancos não têm jeito nenhum. Olhamos para o Tobias e rimo-nos da parvoíce dele enquanto quase se lhe ouve o coração a bater. Mas hoje o Tobias ia ter uma surpresa, uma mão cheia de Chocapics brancos.
Viver no campo é monótono? Se fosse sempre assim era engraçado, mas monótono.
Água fria nas mãos significa ficar paralisado até aos ombros, na cara serve para ficarmos a olhar para o espelho e pensarmos que somos mesmo giros. O duche é uma luta com as torneiras que não misturam como deviam, a água vem do furo que pelos vistos consegue descobrir quando estamos a tirar a fria, no momento em que pensas "agora está mesmo bom!" e pás! Pior que isso, não é uma queimadela nas peles finas da barriga, é que a torneira da água fria salta! Sim, salta e aponta mesmo para o dedo mindinho. Por esta altura só champô nos olhos, para me fazer voltar a entrar dentro da barriga da minha mãe, o conforto e o carinho na altura que mais precisamos.
Já chegado à cozinha relembro a fome com que me deitei no dia anterior, e venha daí o maior pequeno-almoço. Ouve-se um resmungo-murmuro, a minha irmã fala assim, "Não deixas dormir ninguém!", consigo olhar para ela durante dois segundos antes de voltar a tratar do pequeno almoço, ou seja, a fazer a dança do micro-ondas, a que faz os alimentos ficarem quentes duas, sim duas, vezes mais rápido. A minha irmã acende a televisão, depois dum zapping volta ao canal original, canal Andalucia. De manhã nem é assim tão interessante, mas os putos freaks que aparecem na TV espanhola, as repórteres que estripam os entrevistados e as espanholas a cantar e os espanhóis a bater palmas até ganham ao Goucha no fato da Picolé.
Chocapic daqueles novos, com brancos e pretos. Já me tinham recomendado, provo os brancos, não sabe nada bem. Derrete-se como se fosse manteiga, não tem nada a ver com os Galaks da minha infância, "Cláudia abre as mãos, não vou meter isto no meu leite!". E é então que se dá um momento de comunhão único.
A minha irmã abre as mãos, quando eu aproveito para lhe mandar a escáfia "Devias comer mais...", mal os Chocapics começam a deslizar pela caixa, o Tobias, mesmo que esteja no outro lado do monte, parte no desafio de tentar alcançar a sua parte. Atravessa a porta da cozinha na maior das urgências e senta-se ao meu lado com o ar vidrado de quem sabe que tem de fazer tudo para conseguir que lhe dê um chocapic. Para o Tobias, que também é o irmão mais novo, não há rebeldia que se sobreponha a conseguir a sua dose de chocolate, é uma espécie de transe sem a parte espectacular, em que fica estático, especado com os olhos abertos a focar aquilo que pode ser a concretização da sua vida.
A minha irmã recusa-se a ajudar a separar os Chocapics brancos dos pretos, eu insisto sem dizer nada, ela agarra num punhado de chocapics e come, dá-lhe o açucar suficiente para me ajudar. Os brancos são muito menos em proporção aos pretos. Deviam ser melhores? Separa-se o trigo do joio, ou o joio do trigo? Nunca me lembro. Não vamos por aí.
O Tobias dá duas ou três abébias enquanto os chocapics tilintam, há um outro que cai, mas ele não consegue deixar de olhar para o Jackpot. Tenta ladrar, mas lembra-se que não deve ser estúpido enquanto eu tiver com os Chocapics na mão. Acabamos de separar os Chocapics, a minha irmã concorda que os brancos não têm jeito nenhum. Olhamos para o Tobias e rimo-nos da parvoíce dele enquanto quase se lhe ouve o coração a bater. Mas hoje o Tobias ia ter uma surpresa, uma mão cheia de Chocapics brancos.
Viver no campo é monótono? Se fosse sempre assim era engraçado, mas monótono.
29.12.06
Inspiração
A motivação de criar este novo blog é a mais pura inveja pelas pessoas que escrevem e sabem escrever (ponto e vírgula, só vírgula ou um "e" bastava?). E este blog vai ser o mais triste e sádico exercício de alguém a tentar imitar as pessoas que escrevem.
Não há prazer maior do que escrever, e não há compreensão melhor, ou incompreensão, do que ter escrito e ter lido e relido, ou o espanto da primeira vez que lemos algo que realmente nos agrada e nos deixa a pensar o que raios vai naquela cabeça. É um entendimento diferente, e de certeza que é uma expressão diferente. As palavras, as pausas e as frases, sem sorrisos, sem olhos, sem distância. Tenho a certeza que os "escritores" se percebem muito melhor do que nós a eles, e eu quero saber disso.
Fora a história do prazer, porque por aí há outros caminhos, a minha maior motivação para escrever são as pessoas próximas que escrevem. Por muito que leia, acho que sem elas nunca ia tentar. Maricas, é esse o nome. O das pessoas próximas é Rita e Sívél, e vá, um ou outro amigo de amigo que de vez em quando batem com mais força.
Eles podiam nem escrever, mas tá na cara, há que expressar.
Se alguém já leu o Blink, ouve uns malucos que se dedicaram a estudar os músculos da cara, e depois descrever minuciosamente todas as expressões faciais possíveis. Eu aposto que há pelo menos uma expressão facial que só se consegue depois de ler alguma coisa que realmente nos satisfaz. A minha melhor reconstituição consiste em agarrar num elástico fazer um tótó no alto da cabeça e semi-cerrar os olhos. (sim, já fiz isto)
É aquele momento em que dizemos: "Não quero mais, estou satisfeito, ensinaram-me o suficiente." O suficiente, para nos encostármos à cadeira, procurar os braços, à falta de melhor e olhar à volta para ver se as quatros paredes se afastaram ou se aproximaram. É quasi-orgásmico, mas passa e a seguir percebes que alguém te enganou. É sempre assim, as paredes estão no mesmo sítio e tu vais ter que ler mais. São os gajos que escrevem (incluindo aqui todas as maravilhosas gajas que escrevem, nunca mais duvidem).
Já alguma vez se aproximaram de um microfone e falaram?
Não há prazer maior do que escrever, e não há compreensão melhor, ou incompreensão, do que ter escrito e ter lido e relido, ou o espanto da primeira vez que lemos algo que realmente nos agrada e nos deixa a pensar o que raios vai naquela cabeça. É um entendimento diferente, e de certeza que é uma expressão diferente. As palavras, as pausas e as frases, sem sorrisos, sem olhos, sem distância. Tenho a certeza que os "escritores" se percebem muito melhor do que nós a eles, e eu quero saber disso.
Fora a história do prazer, porque por aí há outros caminhos, a minha maior motivação para escrever são as pessoas próximas que escrevem. Por muito que leia, acho que sem elas nunca ia tentar. Maricas, é esse o nome. O das pessoas próximas é Rita e Sívél, e vá, um ou outro amigo de amigo que de vez em quando batem com mais força.
Eles podiam nem escrever, mas tá na cara, há que expressar.
Se alguém já leu o Blink, ouve uns malucos que se dedicaram a estudar os músculos da cara, e depois descrever minuciosamente todas as expressões faciais possíveis. Eu aposto que há pelo menos uma expressão facial que só se consegue depois de ler alguma coisa que realmente nos satisfaz. A minha melhor reconstituição consiste em agarrar num elástico fazer um tótó no alto da cabeça e semi-cerrar os olhos. (sim, já fiz isto)
É aquele momento em que dizemos: "Não quero mais, estou satisfeito, ensinaram-me o suficiente." O suficiente, para nos encostármos à cadeira, procurar os braços, à falta de melhor e olhar à volta para ver se as quatros paredes se afastaram ou se aproximaram. É quasi-orgásmico, mas passa e a seguir percebes que alguém te enganou. É sempre assim, as paredes estão no mesmo sítio e tu vais ter que ler mais. São os gajos que escrevem (incluindo aqui todas as maravilhosas gajas que escrevem, nunca mais duvidem).
Já alguma vez se aproximaram de um microfone e falaram?
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